Não quero enlouquecer. Meus depoimentos são uma maneira de dar uma forma mais verossímel a acontecimentos surreais. Caso nada mais reste, sobrará a minha visão da realidade. Um visão dereísta*… mas pautada em fatos verídicos. Assim, o que escrevo é apenas uma das possíveis versões dos acontecimentos, que podem coincidir ou não, com outras opiniões… Keep Killing the Dead!
* é um tipo de pensamento que se opõe radicalmente ao pensamento realista, o qual submete a lógica e a realidade. No pensamento derreísta o pensar volta-se muito mais ao mundo interno do sujeito, suas fantasias e sonhos manifestando-se como um devaneio, no qual tudo é possível e favorável ao indivíduo.
Goiânia, 1º de julho de 2009 – 5º dia
Início do mês de julho. E após algumas investidas frustradas de arranjar suprimentos, parece-me que estamos começando a querer conseguir alguma coisa, nesse atual mundo caótico.
A primeira tentativa ocorreu há dois dias atrás. Segunda-feira. Madrugada, revisamos quem ficaria de guarda. O carro militar que dava aviso de estado de alerta, calou-se. Não era um bom sinal. Juntamente com tiros, e algumas explosões, o mundo ao redor silenciou-se. Tivemos, então, a ótima idéia de arranjar suprimentos para nos estabelecermos lá em casa, ou, se precisassemos fugir, ter o que levar. Aí é que estava o problema. A idéia era ótima, mas em questão de pensar, somos todos ótimos, mas para agir… Resolvemos arrombar e invadir um mercadinho que há (ou pelo menos havia) na esquina de casa… E pela primeira vez, confrontamos as criaturas que assombram esse pesadelo… Encontramos alguns durante a empreitada, e por fim, botamos fogo no mercado e saimos de lá com algumas águas sanitária, e os nervos a flor-da-pele…
A segunda tentativa, ocorreu um pouco mais tarde, ao tentar invandir uma farmácia. Farmácia até o momento era nossa prioridade, devido necessidade de um de nossos companheiros, Catera, de tomar comprimidos de hormonio… Porém, ao tentarmos uma abordagem mais furtiva, não conseguimos nem adentrar o local… Quanto a essa incursão, não posso fornecer maiores detalhes, pois, após a idiota tentativa no mercadinho, não me restaram forças no dia, e acabei sucumbindo ao cansaço e ao sono…
Assim, por sorte ou azar, mais dois amigos juntaram-se ao grupo: Thiago Pi e seu irmão Gabriel, chegaram de moto em minha casa…
Resolvemos então que o melhor seria tentarmos sair de Goiânia. Pois pelo relato de todos que vieram de outros cantos, a cidade inteira estava em igual ou pior situação ao do meu setor. E buscamos então a esperança de que toda essa loucura esteja ainda restrita a região da Grande Goiânia. Mas e se nossos piores temores forssem verdadeiros, e a situação tivesse saido de controle, tendo espalhado-se para fora da grande Goiânia?
Após muita conversa e consenso decidimos que o ideal seria seguir para locais menos habitados. Assim, rumaríamos para a saída em direção ao norte do país (que agora, analisando melhor, eu e mais alguns, não estamos mais considerando essa a melhor opção…). Irerê, com sua moto, seria nosso batedor. Rodrigo e Leandro, cada um em um carro, seriam os “limpadores”. E por fim, fechando a comitiva, o resto do grupo seguiria de S10, cabine dupla. Marcelo, Irerê e Rodrigo ocuparam-se de armar o grupo, porém, somente arrumamos armas brancas (facas, cutelos, rastelos, serrotes….). Eu e Letícia ficamos responsável por tentar arranjar e arrumar suprimentos (medicamentos, roupas, lençois, alimentos, álcool, lanternas, pilhas, etc), o que conseguimos arrumar separamos em mochilas específicas, caso uma fuga fosse necessária e tivéssemos que abandonar a caminhonete, sabermos qual mochila seria prioridade carregar. O caminho foi relativamente tranquilo, na realidade, melhor do que eu esperava… Conseguimos ir a uma farmácia, pegar os medicamentos necessários e rumar para a saída sem nenum transtorno maior. E eu, que pensei que não passaríamos nem da esquina…
Agora estamos parados em frente a uma barricada militar. No qual os militares transformaram-se nas criaturas…. E isso boa coisa não pode significar, pois quem deveria evitar que a coisa se espalhasse, transformou-se nela…
Sabe, quando uma pessoa muito doente, de uma hora para a outra, mostra-se incrivelmente melhor e mais saudável, para logo após falecer… Talvez esse primeiro sucesso seja apenas essa “visita da saúde”… A subida antes da queda… Ainda não sabemos ao certo o que enfrentamos, qual é essa nova realidade surreal que vivemos. Denominamos essas criaturas de “zumbis”, talvez por se assemelharem ao que já vimos em filmes e ficções, mas a realidade é que não sabemos nada sobre eles… Como ocorre o contágio? Mordida? Essas pessoas realmente tiveram que morrer antes de modificar-se? Morrem ao ter o cérebro destruido? Possuem todos os cinco sentidos? Alimentam-se? Pensam? Ppossuem consciência coletiva? Só temos nosso conhecimento cinematográfico e literário sobre os seres ficcionais denominados zumbis…
Ainda não encontramos outro grupo de sobreviventes. E assim, só fica a esperança de que, se nós conseguimos, nossos familiares e pessoas queridas, também possuem uma chance de ainda estarem “normais” e saudáveis… Pelo menos é no que quero acreditar….





